A casa

O apartamento em Copacabana tem um charme, mesmo sem móveis ainda.
As noites são sempre interessantes. Milhares de assuntos que rondam o dia de cada uma das moradoras se encontram na sala ou na varanda, dependendo da programação televisiva.
De tudo se fala. Trabalho, sonhos, planos. Tudo compartilhado em conversar eternas, enquanto o sono não chega.
Uma atmosfera muito feminina de confissões e segredos velados.
Às vezes explosões tempestuosas, relâmpagos e trovões, farpas aqui e ali, mas no fim de tudo sobram gargalhadas.
Um assunto recorrente, em qualquer aglomeração de mulheres, sempre será o sexo. Aliás, a única coisa melhor que falar de sexo entre amigas é fazer, sem as amigas.
A vizinhança é surpreendente. Um percussionista no prédio em frente toca na janela pra rua inteira ouvir. Na esquina oposta um bar, onde moças de fino trato trabalham, e por vezes sentem um desgosto profundo.
Hoje uma tentou se jogar na frente de um ônibus. A polícia interveio, algemou a menina e levou, enquanto a massa popular se dividiu entre os que queriam ver sangue e os que acharam absurdo ela ser levada num camburão.
Qualquer coisa pode ser dita sobre esta casa, menos que existe em algum momento um cisco de monotonia.
O simples fato de sair pela portaria já rende boas risadas. A total incompreensão por parte dos porteiros, sobre o que acontece aqui é hilária.
Como o comum em Copacabana são mulheres morando juntas em um apartamento para diversão masculina, sabe-se lá o tipo de suspeita que levantamos.
Mas isso está longe de nos despertar constrangimento. É divertido olhar as caras de conjecturas.
Tenho cozinhado todos os dias. É legal saber que as meninas vão chegar azuis de fome e que eu posso fazer algo por elas.
No geral, mesmo em stand by, procurando trabalho e ocupações, já me sinto muito em casa aqui. Na verdade, estou me sentindo em casa desde o momento que cruzei a Rio-Niterói no sábado de manhã.
Acho que se sentir em casa é isso, olhar as coisas e ver como elas são suas verdadeiramente, como se entregam pra você a cada quarteirão que passa.
Estou em casa, finalmente.

Anúncios

A viagem

São 7:52 da manhã, o dia é seis de março de 2010.

 Dormi duas horas e meia de ontem pra hoje, sacolejando num ônibus da viação Itapemirim, que parou em todas as rodoviárias locais de Guarapari a Cachoeiro.

Em Anchieta um pai tentava embarcar com uma criança sem documentação, o que atrasou em quarenta minutos o cronograma da viagem, se é que existia um.

Até a parada em Campos eu não consegui fechar os olhos, exceto para piscar, nem uma vez.

Eram duas horas da manhã, eu estava fora do ônibus fumando um cigarro, que baixou minha pressão e, que foi o responsável pelas duas horas de sono que se seguiram.

Acordei as 3:55 com dores musculares em todos os meus músculos, incluindo alguns que eu nem sabia que existiam. Tentei dormir de novo, mas aquele pai de Anchieta, com a sua criança indigente, estava sentado ao meu lado, atravessando o corredor, e enquanto ele tentava roncar, a pentellha revivia a famosa cena de Shrek 2.

Perdi as contas de quantas vezes ela perguntou se já estava chegando, perdi a paciência, perdi o sono.

O pai dela não, ignorando a criança ele roncava, compondo uma linda sinfonia em parceria com o meu vizinho da cadeira de trás.

Mais ou menos meia hora depois ela dormiu e assim fiz eu também. Às 5:15 chegamos à rodoviária de Niterói.

Fiz um breve revival da minha infância, quando os meus tios moravam em cima do Plaza de Niterói e eu ia passar minhas férias lá.

Lembrei do trote que eu dei numa perua na barca, atravessando pro Rio, do escândalo no Rio Sul, e de sentar sob a mesa de uma das cantinas mais caras e badaladas da época e reclamar que eles não vendiam polenta* igual a da minha avó.

Niterói é uma cidade que eu gosto, e admiro, mas continuo concordando com os cariocas, que dizem que o melhor de Niterói é a vista pro Rio.

Liguei pro meu tio avisando que eu estava chegando, já que ele insistiu em ir me buscar na rodoviária e ver onde era a minha nova casa.

Mofei bons cinqüenta minutos esperando ele se deslocar de Jacarepaguá até a Novo Rio, com cara de sem teto, milhares de bagagens, muito sono e uma fome canina.

Pensei em ligar pra ele e dispensar a carona, porque se eu pegasse um taxi, em quinze minutos eu estaria em casa.

Desisti de desistir da carona pra não criar um trauma profundo e eterno no meu tio caçula, cuja a única família que tem perto sou eu, agora.

Cheguei ao prédio e o porteiro me olhou com cara de poucos amigos, perguntei se a Cicy não tinha descido ou avisado a ele que eu chegaria, ele disse que não, mas me deixou subir assim mesmo, provavelmente por pena da minha situação.

Meu tio se despediu, fez quatrocentas e cinqüenta e duas recomendações, e fechou a porta do elevador pra mim.

Desci no sétimo andar, toquei a campainha e só então, depois de ter falado com ela ao telefone por três vezes, finalmente, consegui acordar a Cinthya, que ainda tinha resto de maquiagem do show que ela foi ontem.

Fiz um café, conversamos um pouco.

Ela voltou a dormir, e eu fiquei acordada, com mil idéias e coisas na cabeça.

Estou escrevendo, tentando colocar pra fora pelo menos as coisas, pra tentar dormir um pouco, coisa que eu acho ser muito improvável, já que o trânsito em Copacabana está fervendo lá fora, e eu o ouço daqui em alto (bem alto) e bom som, como se dissesse, bem vinda à cidade que nunca para.