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7 Jan

Vivo de retroceder tentando corrigir um erro que não se apaga. Não é um erro específico. São vários erros.
Quando me canso de tentar corrigir abandono. Deixo pra trás. E a vida segue como um projeto inacabado.
Sem reescrever. Um texto ruim se destina ao lixo. E esqueço de um dia ter escrito. Incalculáveis boas ideias perdidas com um erro de execução.
Eu e você. Eu e ele. Você e ela. Perdidos.
Se nós tivéssemos pensado um pouco antes de começar a escrever essa história o que seria diferente? Como você a escreveria se começasse agora? Como eu escreveria? Se simplesmente não tivéssemos escrito esta e sim outra. O que seria de nós. Quem seríamos?
Nossos planos de construir uma máquina do tempo e desconstruir histórias. Teríamos pensado nele um dia? Por outros erros que não estes?
Eu gostaria de manter alguns erros. Aqueles que me ensinaram algo. Sem medir o valor do aprendizado.
Se aprendi algo na nossa desconstrução foi a esperar. Ser paciente. Não sei se usaria da mesma forma toda a paciência aprendida. Arrependida? Não. Tempo perdido? Algum. Não todo. Acho que esperaria pra ver o que vem depois. Quem vem mais a diante. Manter distante o que me faz não pensar. O que não me dá a noção exata que as opções são tantas. E o meu medo de me perder em opções. Não ter reescrito. Não ter mastigado mais os meus erros como erros. Sem tentar apagar. Como prismas para novas perspectivas. E descobrir agora. Sentada sobre essa pilha de fios embolados e papéis amassados com as coisas que eu nunca reescrevi. Descobrir logo agora que é uma estupidez enorme não ter me dado opções.
Estou alisando os papéis. Alinhando a coluna. Desembolando os fios. Vivo desembolando fios. Os das tomadas, dos fones. Vivo desembolando os fios porque eu deixo que se embolem. Nem todo nó é cego. E pra todo nó cego tem tesoura. E pra toda história tem outra. Pra toda ideia tem várias versões. Pra nós milhares de opções.

Lerleminski

12 Dez

Vá ler Leminski e me deixe em paz.
Não me faça voltar atrás
com seu meio sorriso
Que nem me impressiona e nem preciso
Me deixa ser decidida
Cuida da vida
Enquanto eu faço poesia.

Mais um sonho

5 Dez

“Mais um sonho. São sempre situações curtas. Fragmentos. Cenas com poucas ações. E ações cheias de significado.

Da primeira vez estávamos deitados e conversávamos olhando o céu. Era simples. Deitados lado a lado conversando e rindo. Como se uma câmera nos captasse do teto. Era assim que eu via a cena.

Aquele sonho antes de tudo. Antes das conversas e risadas que vieram. Sim. Vieram. Se realizaram.

Estranho que eu não me lembre tão nitidamente da maioria dos meus sonhos. Já falei disso?”

A analista me observa enquanto descrevo as coisas. Como se assistisse ao filme da vida que levo. E minha vida aparentemente a leva a crer que eu mereço estar ali naquele consultório. Acho justo que ela pense que eu sou meio maluca. Não sei se é isso que ela pensa, mas é o que parece quando ela me olha.

Tem alguma coisa naquele olhar entre a compaixão e o estranhamento que me faz pensar que ela sabe que eu sou louca. Coisa que eu mesma ainda não sei ao certo.

As cortinas da sala tremulam como bandeiras ao vento. Atrás delas as janelas abertas. Além das janelas o Rio de Janeiro. Tremulam como bandeiras de algum lugar distante em que nunca estive fora dos meus sonhos.

Como o segundo sonho que tive quando andávamos por ruas de Paris. E poderia ser qualquer outro lugar, mas foi Paris por causa da música. E do filme. Qual o nome que se dá a isso? Tem um nome quando seus sonhos são a sobra do seu dia.

Estranho dizer sobra do dia. Se eu pensar bem os meus sonhos são o que me sobra no final de todo dia.

A analista continua a me observar sem responder. Eu insisto. “Já te falei disso?”

Ela não deve ter mais que 32 anos. É calma. Fala pouco e muito baixo. E pela minha cabeça passa como um raio o pensamento que talvez não seja estranhamento. Intimidação.

“Será que eu intimido as pessoas?”

Os olhos dela se fixam sobre mim. Retomando a atenção ou descontinuando o pensamento que ela desenvolvia. “Você acha que intimida as pessoas?”

Eu não sei bem o que responder. Penso em intenção. Nunca tive a intenção, nunca desenvolvi de forma racional uma situação de intimidação.

“Eu sei que eu me sinto intimidada. Muitas vezes. E em outras eu luto com todas as minhas forças pra não sentir. Pode ser nesse momento… “

“Que você intimida as pessoas?”

Eu olho o rosto pequeno da minha analista. Os olhos juntos e muito verdes. Cabelos lisos, corte reto. Ela acabou de afirmar que eu intimido as pessoas e agora eu vejo o quanto ela parece um bichinho. Um desenho de criança. Um animalzinho indefeso de olhos brilhantes.

“Acho que se eu intimido alguém é porque as pessoas não estão acostumadas a ver alguém tão pequeno e indefeso. Tão intenso e passional usando todas as forças pra não precisar de ninguém. Pra ser feliz sozinha.”

“Me fala mais sobre as suas lembranças de sonhos.”

“É estranho como não lembro. Quando era mais nova lembrava de tantos sonhos. E eram sempre sonhos cheios de detalhes sinestésicos. As coisas costumavam ser coloridas e ainda ao acordar sentia o cheiro ou o gosto delas. Tinha a sensação tátil. Com o tempo isso foi se perdendo. Mas quando sonho com esse homem, todas essas sensações estão presentes. Lembro nitidamente no dia seguinte.”

Agora seu olhar é de surpresa. Apenas com gestos ela indica que eu continue.

“No último sonho eu pedia um abraço. Ele me olhava desconfiado. Como se eu o intimidasse. Não vou fazer nada, juro. Só quero o abraço e o silêncio. Eu falava. E ele me acolhia. Eu sufocava meu rosto no peito dele e respirava. Respiração lenta. E dos meus olhos as lágrimas escorriam. Um choro silencioso. Sem gemidos ou resmungos. Só o sal das lágrimas nos meus lábios. Acordei com sede e ausência.

Você sabe o que é isso? Só querer abraçar alguém? Só deitar do lado do cara com a cabeça no peito dele e ficar lá. Fazendo de conta que o mundo do lado fora não existe? Só vocês e o silêncio?

É como se uma parte minha morresse ao admitir que eu tenha esse desejo.

Alguém pra dormir e acordar quando a vida cansa e te sacode com mais vontade do que você pode suportar. É quase como admitir que lutar com todas as minhas forças pra ser feliz sozinha é vão.

A verdade é que eu cansei do quanto a vida me sacode mais do que eu suporto. Cansei de rir disso como se não fosse grande coisa. Sobretudo cansei de não realizar os meus sonhos.”

Ela interrompe a sessão. Ela sempre faz dessa forma. Quando entende que eu tenho uma frase chave com algum significado que eu deveria lidar sozinha.

Acabei de contar pra ela que eu ando cansada de lidar sozinha com as coisas e ela abre a porta. Eu começo a rir disso como se não fosse grande coisa. É instintivo.

Pelo menos eu posso ir pra casa. Deitar na minha cama e sonhar com você me dando colo. Enquanto a minha cabeça deita na sua perna e você mexe no meu cabelo e gente coleciona piadas. Não é a mesma coisa que realizar. Mas é melhor que nem sonhar, né?

Ainda saindo consultório eu entendo que isso serve pra tudo. Eu posso estar cansada de não realizar meus sonhos. Mas ainda é melhor que não ter sonho nenhum. Tenho vontade de voltar correndo pelas escadas pra contar pra ela que eu entendi. Tenho vontade de ligar pra você e te contar que aprendi.

Depois eu percebo que quem deveria entender já entendeu e saio cantando Tulipa Ruiz pela rua “só pra ver se me acontece alguma coisa nessa parte do caminho”.

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