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Sonhos com Piaf

27 Jun

É apenas um sonho.

Por ser sonho Piaf canta em todas as cenas.

O primeiro ambiente é um restaurante. Paredes vermelhas. A iluminação amarela e fraca dissipa levemente a penumbra. Ao piano um homem magro de bigodes finos toca concentrado com um cigarro no canto da boca. Equilibrando sem notar uma enorme cinza que parece pender para a esquerda. O homem do acordeão é robusto e sua bastante apesar de tocar o instrumento sem esforço aparente. Uma mulher pequena trajada com um vestido longo canta Piaf.

Ela poderia ser a própria Edith. A forma física e a estrutura do rosto lembram la môme.

Ella e Jack estão sentados a uma mesa próxima das grandes janelas cobertas por cortinas de tecido translucido. Todo ambiente parece antigo e meio empoeirado.

Mas o vinho é bom e a conversa entre os dois parece ter sido escrita antes de proferida. É uma conversa rápida e esperta. Empolgada como uma conversa entre duas pessoas que precisam expor ideais. Falam com a paixão de quem confessa sonhos. Ou ainda a verborragia dos planos individuais futuros de duas pessoas que se procuram e procuram dar sentido à vida inteira.

E como isto é apenas o relato de um sonho pode ser que encontrem algum sentido. Eu penso que se existe um lugar possível para encontrar sentido na vida, ou significados válidos para a vida, este lugar é o mundo intangível dos sonhos.

O jantar chega e os dois comem. Ella rouba coisas do prato dele e ri como se o que fizesse fosse algo proibido ou uma pequena arte de criança. Mas a maior diversão do jantar é dividir a sobremesa. Mesmo as sobremesas reais parecem ser feitas de ingredientes que foram sonhados por alguém.

O casal deixa o restaurante de braços dados. Andam meio trôpegos pelas vielas cobertas de paralelepípedos.

Ao se afastarem do restaurante a música que ouviam vai baixando.

Virando a esquina entram numa rua escura com prédios de quatro andares dos dois lados. Caminham pelas calçadas estreitas quando no prédio do centro da rua, no segundo andar, uma luz se acende. Uma bela mulher loira de cabelos longos e ondulados, recém escovados, abre a janela. Do apartamento sai o som de uma vitrola antiga.

Os dois podem ouvir o barulho sutil da agulha em contato com o vinil. E mais uma vez Piaf canta. Ela caminha meio trêmula. Jack pergunta se a moça sente frio. Ella sempre sente frio. Ele a abraça e continuam a caminhar. Conversando e sorrindo.

E como isso é apenas um sonho eu não consigo ter certeza sobre qual assunto conversam. Talvez sobre a vida que ela deseja ter. As coisas que pretende reinventar e tornar melhores. Talvez brinquem de adivinhar o que o outro pensa.

E em sonhos isso também é possível.

Precipício

14 Mai

Ela está sentada à beira da piscina.

Num hotel, com um número relevante de estrelas.

Visivelmente ressaqueada, usa chapéu de palha e enormes óculos escuros retrô. Toma uma água de coco segurando o coco verde com as duas mãos. Uma esfera imensa e verde, pesada demais para qualquer tentativa de esforço dela, que tem a cabeça latejando.

Ele chega. Senta-se numa cadeira a frente dela. Pede um café e o jornal. Ele usa um terno claro e óculos rayban de lente escura. Não usa gravata. Apenas uma camisa social clara sem mangas por baixo de um paletó leve.

Faz sol. Mas não está tão calor. De qualquer forma em algumas horas ele estará dentro de alguma sala com ar condicionado, por isso o terno não é inapropriado.

Ela vai mergulhar na piscina e tentar curar a cabeça que parece ter o tamanho da lua agora.

Eles não se cumprimentam. Ela continua tomando a água de coco. Ele abre o jornal e lê. Não dizem nem bom dia. Agem na verdade como se um sequer visse o outro, e seriam capazes de jurar que quem os visse ali era capaz de enxergar duas dimensões distintas. Dois mundos paralelos.

Eles estão sentados à beira do abismo. Ela diz:

“Acho que não deveríamos mais nos ver.”

Ele se irrita, mas não o suficiente para subir o tom de voz. – “Não começa.”

“Não tô tentando começar nada. Tô tentando é terminar.” – responde cínica.

“Você já tá me cansando.” – ainda calmo.

“Por que você não vai a merda, hein seu babaca?” – descontrolada.

“O que é que você tem, mulher?” – ele diz olhando-a de frente. Sério, sem se exaltar. Apenas com firmeza no olhar.

“Eu sou muito maluca.” – Ela responde começando a chorar. Já abandonou o chapéu e está um pouco mais descabelada que uma pessoa normal. – “Um dia eu ainda acabo me dando um tiro.”

Não que ele desconfie da capacidade dela, mas ele debocha assim mesmo. – “Eu duvido muito. Você sabe que é bonita.”

“Eu não quero mais te ver e pronto. Se eu não posso me dar um tiro, corto os pulsos. Sei lá, qualquer porra!” – completamente ensandecida.

“Porque você não levantou ainda e foi embora?” – Com um tom de voz cheio de pedantismo. Insinuando que ela não seria capaz de deixá-lo.

“Mas você é um puta de um babaca mesmo.”- suspira – “Porque eu te amo, porra!”

“Então pára com essa porra que não quer me ver.”

Ela chora escandalosamente, os olhos inchados. As lágrimas brotam numa progressão aritmética, como se ela fosse verter um rio, cascatas pelos olhos. Levanta- se da mesa. Tira a roupa enquanto berra: – ”Mas não quero mesmo. Nem te amar eu queria, tá? Tá tudo errado.”

Vai caminhando para a beirada. Ele levanta e tenta acalma-la com gestos. Sem dizer uma palavra. Como se ele realmente acreditasse que ela se jogaria.

“Eu sou muito maluca. Um dia eu ainda acabo me dando um tiro. Tô te avisando e você não acredita.” – ela pula na piscina.

Ele senta-se de novo e observa a mulher nadar. Ele só preferia que ela estivesse nua.

Definições que não estão no dicionário

13 Mar

Perder-se:

Mesmo com mapas e bússolas. Gps ou ferramentas de navegação. Orientação solar. Estelar. Não se encontrar sob hipótese alguma, em qualquer circunstância.

Sair do eixo, desconcentrar. Ter milhões de pensamentos numa fração de segundo e saber com exatidão o conteúdo de todos eles. E tudo conter um único personagem.

Viajar nos sentimentos além das sensações. Desconhecer, por excesso, quantas vezes você temeu que aquilo voltasse a acontecer. Quantas vezes respirou fundo e negou: “Isso não é paixão.”

Ter a sensação de ser dragada pra fora de si e jogada no universo do outro com uma profundidade que desintegra o seu próprio.

Tentar decifrar uma alma através do olhar. Não querer se entregar, lutar contra isso, e estar entregue instantaneamente. Tomar consciência dessa entrega exatamente quando se deveria deixar o corpo seguir o rítmo e não pensar em nada, só aproveitar o momento.

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