É apenas um sonho.
Por ser sonho Piaf canta em todas as cenas.
O primeiro ambiente é um restaurante. Paredes vermelhas. A iluminação amarela e fraca dissipa levemente a penumbra. Ao piano um homem magro de bigodes finos toca concentrado com um cigarro no canto da boca. Equilibrando sem notar uma enorme cinza que parece pender para a esquerda. O homem do acordeão é robusto e sua bastante apesar de tocar o instrumento sem esforço aparente. Uma mulher pequena trajada com um vestido longo canta Piaf.
Ela poderia ser a própria Edith. A forma física e a estrutura do rosto lembram la môme.
Ella e Jack estão sentados a uma mesa próxima das grandes janelas cobertas por cortinas de tecido translucido. Todo ambiente parece antigo e meio empoeirado.
Mas o vinho é bom e a conversa entre os dois parece ter sido escrita antes de proferida. É uma conversa rápida e esperta. Empolgada como uma conversa entre duas pessoas que precisam expor ideais. Falam com a paixão de quem confessa sonhos. Ou ainda a verborragia dos planos individuais futuros de duas pessoas que se procuram e procuram dar sentido à vida inteira.
E como isto é apenas o relato de um sonho pode ser que encontrem algum sentido. Eu penso que se existe um lugar possível para encontrar sentido na vida, ou significados válidos para a vida, este lugar é o mundo intangível dos sonhos.
O jantar chega e os dois comem. Ella rouba coisas do prato dele e ri como se o que fizesse fosse algo proibido ou uma pequena arte de criança. Mas a maior diversão do jantar é dividir a sobremesa. Mesmo as sobremesas reais parecem ser feitas de ingredientes que foram sonhados por alguém.
O casal deixa o restaurante de braços dados. Andam meio trôpegos pelas vielas cobertas de paralelepípedos.
Ao se afastarem do restaurante a música que ouviam vai baixando.
Virando a esquina entram numa rua escura com prédios de quatro andares dos dois lados. Caminham pelas calçadas estreitas quando no prédio do centro da rua, no segundo andar, uma luz se acende. Uma bela mulher loira de cabelos longos e ondulados, recém escovados, abre a janela. Do apartamento sai o som de uma vitrola antiga.
Os dois podem ouvir o barulho sutil da agulha em contato com o vinil. E mais uma vez Piaf canta. Ela caminha meio trêmula. Jack pergunta se a moça sente frio. Ella sempre sente frio. Ele a abraça e continuam a caminhar. Conversando e sorrindo.
E como isso é apenas um sonho eu não consigo ter certeza sobre qual assunto conversam. Talvez sobre a vida que ela deseja ter. As coisas que pretende reinventar e tornar melhores. Talvez brinquem de adivinhar o que o outro pensa.
E em sonhos isso também é possível.