Alice escreve contos para um periódico quinzenal. Faz isso há alguns anos, talvez três, três e meio. Ela não teria certeza. É algo menos espontâneo e mais metódico, sobretudo isso já se tornou um hábito. Tem quatrocentos e nove fãs, que eventualmente escrevem suas críticas ao periódico, que se encarrega de levá-las à Alice.
Seu emprego fixo é o de revisora numa pequena editora. Seu sonho de escrever um romance que cativasse o publico e se transformasse num Best Seller ficou perdido no seu primeiro ano como contista profissional. Acabou se acostumando com seu emprego, corrigindo e dando pequenas contribuições intelectuais aos textos de outros escritores. Isso e o periódico, que a livra de sentir frustração.
Alice leva uma vida tranqüila.
Escreve sempre com alguns dias de antecedência ao fechamento da quinzena. Se a publicação sai dia quinze, dia treze o texto está pronto, revisado e entregue. Para isso senta-se ao nono dia do mês frente ao seu notebook com uma xícara de café, exatamente duas horas antes de ir ao trabalho, e escreve. Para a publicação do fim do mês faz exatamente o mesmo processo. Contando os dias exatamente da mesma forma.
É o vigésimo quarto dia do mês de abril. Alice acorda. Faz seu café. Liga seu computador. Veste-se para o trabalho e senta-se para escrever. Cinco da manhã. Lá fora ainda é noite.
Os cinco primeiros minutos sempre são os menos produtivos. Geralmente porque muitas idéias vêm à cabeça e ela precisa filtrar. É necessário que a idéia certa se destaque entre todas as outras.
No vigésimo quarto dia de abril as coisas começam um pouco diferentes. Nenhuma idéia. Boa ou ruim ocorre. Dez minutos se passam. Nenhuma idéia. Certa ou errada. Vinte minutos. Alice busca outra xícara. Meia hora e a tela em branco passa a encarar a escritora com um tom desafiador.
Alice então se dá conta de que não é apenas a tela que está em branco. Existe um branco nela. Um vazio que causa eco em sua pergunta. “Onde estão minhas idéias?”
Alice sai para o trabalho. Passa o dia sentindo um vazio completo. Está dispersa. Não consegue encontrar foco para as suas correções. Tudo que ela consegue pensar é sobre o conto que não escreveu.
O dia inteiro perdido. Nada rende. Ela esquece como escrever algumas palavras. Erra o nome do chefe, da secretária. Aos poucos sua memória vai se apagando mais e mais.
Alice deixa o escritório atordoada. Caminha por duas quadras. No instante seguinte ela está travada na esquina. “Pra onde eu devia ir?” Ela não consegue lembrar onde vive. É o auge do colapso.
…
(continua)