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Reverso

28 Abr

O narrador desta história é um homem confuso. Ele não pode dizer exatamente se é narrador ou personagem. Se é os dois. Ou se narra coisa alguma porque seu coração acelera e suas mãos tremem.

Se conseguisse segurar a caneta próxima ao papel sem desenhar pequenas e tortuosas linhas poderia contar o que sente. E talvez alguns leitores, os com alguma sensibilidade, se identificariam.

O narrador desta história treme, e no papel finas linhas, como as de um eletrocardiograma se desenvolvem antes da idéia.

Sua maior dificuldade em narrar vem de uma esquizofrenia literária. Não sabe até que ponto pode contar esta historia sem confundi-la com realidade. Não a vive sem misturá-la com ficção.

Sua dúvida maior é que como começar. E até mesmo porque começar se já enxerga para ela um trágico fim.

Trágica como a realidade alcança ser sem se cansar. Como se repete fatidicamente todos os dias.

E de que interessaria ao leitor se prender a uma história sabendo o seu final?

Ela morre. Ela, a mulher pela qual o narrador passa obcecado os seus dias. Morre com ela a história que deveria ser escrita aqui. E morre a história dela sem personagem principal.

Ela, bela, Isabela…

Alucinações

13 Mar

Chuva torrencial no Rio de Janeiro. Alice está há alguns metros do ponto do ônibus. O ponto está cheio sob a cobertura. Ela espera na chuva.

Adiante ela vê esse homem parado na esquina. Ele não é bonito. Ele não chamaria sua atenção exceto por estar parado na esquina sob a chuva. Ela espera um transporte para casa depois de um dia cansativo de trabalho. O homem não espera nada.

A forma como este homem está parado é bizarra. Tem os olhos fixos num ponto aleatório que fica no ponto cego de Alice.

Ele se move. Gira em seu próprio eixo. Parece perdido ou insano. Volta a fixar os olhos num ponto qualquer onde não há nada. Mesmo se houvesse ele não veria. Olhar vago o do homem.

Alice se incomoda com aquela rotina de giros e olhares vagos. Ela gosta de caminhar em linha reta. Direto ao ponto. Tem pressa de chegar.

Ela vê pessoas cruzando a rua. A mãe que empurra o carrinho com seu bebê na calçada passa por ela. Uma carroça de cachorro quente que um senhor grisalho começa a montar no canteiro central da rua Humaitá. O homem ainda parado na esquina. Ela vê tudo isso enquanto o homem não enxerga nada.

Uma loucura contida em Alice começa a se manifestar gradativamente. Primeiro sente um calafrio. Depois suas pernas começam a tremer. O estômago borbulha de aflição.

O homem parado na maldita esquina.  O maldito homem parado na esquina.

Alice caminha em linha reta esbarrando nas pessoas que vem no sentido contrário, objetiva como uma seta que tem como direção a esquina.

Ela chega perto do homem que dá  um ultimo giro em seu próprio eixo. Alice acende um fósforo e ateia fogo nas roupas do homem.

Ela acorda no chão da rua com um aglomerado de pessoas ao seu redor.  Com ajuda de dois rapazes uniformizados ela levanta. As pessoas se dispersam e ela pode ver a esquina. Não há ninguém lá. Parado ou passando. Nem uma sombra naquela esquina.

“Essas alucinações tem que parar.”

Experience

15 Fev

Alice escreve contos para um periódico quinzenal. Faz isso há alguns anos, talvez três, três e meio. Ela não teria certeza. É algo menos espontâneo e mais metódico, sobretudo isso já se tornou um hábito. Tem quatrocentos e nove fãs, que eventualmente escrevem suas críticas ao periódico, que se encarrega de levá-las à Alice.

Seu emprego fixo é o de revisora numa pequena editora. Seu sonho de escrever um romance que cativasse o publico e se transformasse num Best Seller ficou perdido no seu primeiro ano como contista profissional. Acabou se acostumando com seu emprego, corrigindo e dando pequenas contribuições intelectuais aos textos de outros escritores. Isso e o periódico, que a livra de sentir frustração.

Alice leva uma vida tranqüila.

Escreve sempre com alguns dias de antecedência ao fechamento da quinzena. Se a publicação sai dia quinze, dia treze o texto está pronto, revisado e entregue. Para isso senta-se ao nono dia do mês frente ao seu notebook com uma xícara de café, exatamente duas horas antes de ir ao trabalho, e escreve.  Para a publicação do fim do mês faz exatamente o mesmo processo. Contando os dias exatamente da mesma forma.

É o vigésimo quarto dia do mês de abril. Alice acorda. Faz seu café. Liga seu computador. Veste-se para o trabalho e senta-se para escrever. Cinco da manhã. Lá fora ainda é noite.

Os cinco primeiros minutos sempre são os menos produtivos. Geralmente porque muitas idéias vêm à cabeça e ela precisa filtrar. É necessário que a idéia certa se destaque entre todas as outras.

No vigésimo quarto dia de abril as coisas começam um pouco diferentes. Nenhuma idéia. Boa ou ruim ocorre. Dez minutos se passam. Nenhuma idéia. Certa ou errada. Vinte minutos. Alice busca outra xícara. Meia hora e a tela em branco passa a encarar a escritora com um tom desafiador.

Alice então se dá conta de que não é apenas a tela que está em branco. Existe um branco nela. Um vazio que causa eco em sua pergunta. “Onde estão minhas idéias?”

Alice sai para o trabalho. Passa o dia sentindo um vazio completo. Está dispersa. Não consegue encontrar foco para as suas correções. Tudo que ela consegue pensar é sobre o conto que não escreveu.

O dia inteiro perdido. Nada rende. Ela esquece como escrever algumas palavras. Erra o nome do chefe, da secretária. Aos poucos sua memória vai se apagando mais e mais.

Alice deixa o escritório atordoada. Caminha por duas quadras. No instante seguinte ela está travada na esquina. “Pra onde eu devia ir?” Ela não consegue lembrar onde vive. É o auge do colapso.

(continua)

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