Acorda às 9:45 da manhã.
O rosto inchado de sono. Os olhos ainda colados que esfrega tentando enxergar.
Ele não está na cama. O sol entra difuso pela cortina branca que ele escolheu.
“Posso aproveitar melhor a luz.” – foi o seu argumento.
E mesmo gostando de dormir no breu completo ela concorda. – “Vão as brancas translúcidas.”
Na cadeira ao lado da janela ele segura o bloco de papel pra desenho de cabeça para baixo. O braço esquerdo meio torto, o cotovelo fazendo um ângulo de 45 graus, o pulso torcido pra dentro desse triângulo que se forma. Ele rabisca com grafite.
Depois de vê-lo sentado a sensação de estar no lugar certo, na hora exata, faz com que ela se deite mais um pouco. Se aninha no meio das toneladas de cobertas que acumularam na noite mais fria do ano.
Preguiçosa como um gato se revira uma. Duas. Na terceira vez decide levantar. Ele resmunga.
Esfregando seu nariz no dele ela imita seus resmungos com um sorriso no canto da boca. O mesmo sorriso que ele gosta de desenhar nestes blocos de papel.
Num canto da cama ela cata uma camisa branca de botão dele que adora vestir. Aquela em que caberiam três dela.
Ele mostra a ela as três últimas folhas de desenho do bloco. Duas delas tem desenhos completos.
Neles ela dorme. As costas nuas. Uma faixa de luz irrompe diagonalmente as sombras do quarto na faixa que sai do seu ombro à sua cintura.
Na última folha ele desenhava o gato dormindo no canto da cama. Sobre o cobertor. E sob ele só o volume do corpo da mulher. Que nos desenhos dele sempre parece maior do que é realmente. Pra fora do cobertor só os pés, minúsculos.
Ela se lembrou da conversa que tiveram na segunda vez em que ele a desenhou, ainda na mesa da Café com Arte. Era o quarto encontro.
- “Eu sou menor. Seu desenho tá meio sem proporção.”
Sem tirar os olhos do papel.
- “Cê tá enganada. Você é grande.”
Mas esse desenho ele não terminou.
Ela se mexeu na cama. Pudim perdeu seu canto confortável, se lambeu e saiu serpeando o rabo.
Ela caminha descalça atravessando a porta do quarto. Ele se junta a ela andando com os dois braços atados à sua cintura. Firme, sem soltar.
Ela tenta cócegas. Ele tem a concentração de um monge e não se move. Ele revida e ela quase desmancha.
Então ele volta a atar a cintura dela com os dois braços e a ergue do chão no corredor.
No meio do dele há uma porta que eles abrem fazendo silêncio.
Por cima da cabeça dela ele estica o pescoço e observa a cama pequena onde um garotinho de 2 anos dorme de pijamas. Um pijama azul marinho com estrelas brancas e foguetes vermelhos desenhados.
O casal entra no quarto e se ajoelha próximo a cama do garoto. O gato para na porta. Não chega a entrar mas observa postado sobre as patas traseiras.
A mulher passa a mão pelos cabelos castanhos do menino. O homem segura a mãozinha e diz:
- “Deixa ele dormir mais um pouco, não?”
- “O sol abriu. Ele pode brincar lá fora.”
- “Então vamo acordar.”
Ela se aproxima e beija o rosto do filho. Com uma mão sobre o ombro do garoto o pai o balança de leve. – “Estevão… acorda.”
O garotinho abre apenas um dos dois enormes olhos verdes. Depois abre os dois e se pendura no pescoço da mãe que o tira da cama.
Eles caminham. Passam pelo corredor com Pudim os seguindo. Chegam à sala. Ela o coloca sentado no tapete. O pai estica o braço e alcança várias canetas coloridas e um bloco de papel de tamanho menor que os seus.
Estevão se aproxima e recosta nas pernas do pai tentado administrar com as mãos pequenas todas aquelas canetas e papel.
O pai abre um livro. La rosa profunda do Borges.
Ela pergunta da cozinha: -“Panqueca, meus amores?”