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Futuro do pretérito

17 Jul

Acorda às 9:45 da manhã.
O rosto inchado de sono. Os olhos ainda colados que esfrega tentando enxergar.

Ele não está na cama. O sol entra difuso pela cortina branca que ele escolheu.
“Posso aproveitar melhor a luz.” – foi o seu argumento.
E mesmo gostando de dormir no breu completo ela concorda. – “Vão as brancas translúcidas.”

Na cadeira ao lado da janela ele segura o bloco de papel pra desenho de cabeça para baixo. O braço esquerdo meio torto, o cotovelo fazendo um ângulo de 45 graus, o pulso torcido pra dentro desse triângulo que se forma. Ele rabisca com grafite.

Depois de vê-lo sentado a sensação de estar no lugar certo, na hora exata, faz com que ela se deite mais um pouco. Se aninha no meio das toneladas de cobertas que acumularam na noite mais fria do ano.

Preguiçosa como um gato se revira uma. Duas. Na terceira vez decide levantar. Ele resmunga.

Esfregando seu nariz no dele ela imita seus resmungos com um sorriso no canto da boca. O mesmo sorriso que ele gosta de desenhar nestes blocos de papel.

Num canto da cama ela cata uma camisa branca de botão dele que adora vestir. Aquela em que caberiam três dela.

Ele mostra a ela as três últimas folhas de desenho do bloco. Duas delas tem desenhos completos.

Neles ela dorme. As costas nuas. Uma faixa de luz irrompe diagonalmente as sombras do quarto na faixa que sai do seu ombro à sua cintura.

Na última folha ele desenhava o gato dormindo no canto da cama. Sobre o cobertor. E sob ele só o volume do corpo da mulher. Que nos desenhos dele sempre parece maior do que é realmente. Pra fora do cobertor só os pés, minúsculos.

Ela se lembrou da conversa que tiveram na segunda vez em que ele a desenhou, ainda na mesa da Café com Arte. Era o quarto encontro.

- “Eu sou menor. Seu desenho tá meio sem proporção.”

Sem tirar os olhos do papel.

- “Cê tá enganada. Você é grande.”

Mas esse desenho ele não terminou.

Ela se mexeu na cama. Pudim perdeu seu canto confortável, se lambeu e saiu serpeando o rabo.

Ela caminha descalça atravessando a porta do quarto. Ele se junta a ela andando com os dois braços atados à sua cintura. Firme, sem soltar.

Ela tenta cócegas. Ele tem a concentração de um monge e não se move. Ele revida e ela quase desmancha.
Então ele volta a atar a cintura dela com os dois braços e a ergue do chão no corredor.

No meio do dele há uma porta que eles abrem fazendo silêncio.

Por cima da cabeça dela ele estica o pescoço e observa a cama pequena onde um garotinho de 2 anos dorme de pijamas. Um pijama azul marinho com estrelas brancas e foguetes vermelhos desenhados.

O casal entra no quarto e se ajoelha próximo a cama do garoto. O gato para na porta. Não chega a entrar mas observa postado sobre as patas traseiras.

A mulher passa a mão pelos cabelos castanhos do menino. O homem segura a mãozinha e diz:

- “Deixa ele dormir mais um pouco, não?”
- “O sol abriu. Ele pode brincar lá fora.”
- “Então vamo acordar.”

Ela se aproxima e beija o rosto do filho. Com uma mão sobre o ombro do garoto o pai o balança de leve. – “Estevão… acorda.”

O garotinho abre apenas um dos dois enormes olhos verdes. Depois abre os dois e se pendura no pescoço da mãe que o tira da cama.

Eles caminham. Passam pelo corredor com Pudim os seguindo. Chegam à sala. Ela o coloca sentado no tapete. O pai estica o braço e alcança várias canetas coloridas e um bloco de papel de tamanho menor que os seus.

Estevão se aproxima e recosta nas pernas do pai tentado administrar com as mãos pequenas todas aquelas canetas e papel.

O pai abre um livro. La rosa profunda do Borges.

Ela pergunta da cozinha:  -“Panqueca, meus amores?”

Soundtrack 

A arte do platonismo

13 Jun

Lúcia caminha 3 quadras com seus saltos finos pelas pedras portuguesas. A caminhada é cansativa e tortuosa. Às 15:37 chega ao sobrado onde funciona a galeria de arte onde trabalha.

Antes de sentar-se para o início do seu trabalho na recepção vai ao banheiro reorganizar o tailleur. A blusa está fora da saia que está torta. Tudo ficou desconjuntado enquanto ela se esforçava para não tropeçar ou quebrar os saltos no caminho.

Enquanto se arruma ela pensa em Allende. Um argentino que conheceu numa exposição. Foi apresentada a ele por uma amiga artista que nasceu na Ucrânia. Finalmente sexta passada, numa exposição fotográfica sobre amores roubados, ela o reencontra.

Até o presente momento todas as suas características são dessas que bagunçam as idéias da moça. Idéias essas feitas. Ou refeitas com o tempo. Ou insistentemente racionalizadas com todo método. Que ficam perfeitas instantes antes de mudar de novo.

Ele é dono de todo charme. Além de ser inteligente, interessante e muito bonito.

Bonito nos detalhes que ela recorta com os olhos e projeta separados do todo em pequenos frames. E essas pequenas imagens soltas, recortadas, pairam na memória dela vez ou outra no meio do dia. E torturam. Torturam. Insistem.

Do banheiro sai uma Lúcia totalmente diferente da que entrou. Corada, maquiagem perfeita e uma postura impecável sobre os saltos finos.

Ela senta no banco alto atrás do balcão. Fica posicionada no quadrante inicial do salão principal da galeria recebendo os visitantes e indicando o livro de visitas.

Seu corpo está ali. Seu rosto sorridente ainda recebe os visitantes. A cabeça volta a Allende.

Bonito também no conjunto. O que não é importante. Detalhes sim. Pra ela são fundamentais. Os olhos, o sorriso. O sorriso largo, amplo, onde ela se perde ao tentar contar os dentes. E se perde ao imaginar aqueles dentes cravados em sua nuca. E se perde ao querer que eles se cravem agora, enquanto ela tenta racionalizar e não consegue porque eram dentes demais pra contar. E perde a conta.

A intensidade dos seus pensamentos a transporta para o dia em que os amores roubados estavam pendurados em todas as paredes. Numa sala repleta de pessoas, sons e luzes.

Desta vez não.  Os amores de outras pessoas roubados por outros estranhos ainda estão nas paredes. Mas agora as luzes não focam os retratos e sim o centro da sala onde estão apenas os dois.

Há também uma tensão os cercando. Os dois corpos estáticos mantidos a uma distância segura. A ausência de toques. Os olhares não trocados. Ela apenas o vê com a visão periférica. Quando ele olha ela evita olhar de volta.

São dois imãs sentindo a energia que os atrai. Mas diferentes de imãs porque tem a consciência de que essa energia os está aproximando. Com essa consciência tentam ao máximo manter distância segura, petrificados em pontos opostos do espaço que ocupam.

A tensão aumenta. Nesse momento o rosto dela aquece. Superaquece. Arde. O coração disparado e a respiração ofegante. Que ela controla pra não ser ouvida nos vãos do prédio e nos edifícios ao redor.

Delicado. Quase fêmea se dirigindo a ela. A mão na cintura para movê-la do lugar abrindo passagem para ver uma outra foto.

Felino. Atravessando a sala esbarra acidentalmente nos pedaços mais inofensivos da pele da moça.

Ele se aproxima por displicência. Ingênuo. Quase infantil.

Lucia se contém. Tenta. O coração desacelera mas bate com mais força. Como pancadas no peito. Uma gota de suor frio escorre pelo pescoço e os pelos se arrepiam.

Existe dentro dela uma bomba e os ”tic tacs” estão cada vez mais intensos.

Ela trava. Sente todos os músculos enrijecendo. Começando pelas pernas que não pode mover. Até a nuca e a cabeça que já não pode pensar.

Não pensando ela apenas sente. O suor, os calafrios. As mãos geladas. O corpo molificando.

A força que lhe falta vem da falta de vontade de lutar contra. Ela se deixa relaxar encostando a cabeça no ombro dele.

Ele a enlaça. Não com um dos braços como quem apenas consente. Não com um dos braços como quem retribui um carinho fraternal. Enlaça com os dois. Pressiona o seu corpo inteiro contra o dela.

Ela se solta desse abraço em desespero. Fingindo um desapego que já não existe. Se afasta 45 centímetros e fica de costas para ele. Não quer olhar. Não vai olhar. Teme ser dragada de volta àquele abraço. Teme perder a consciência com um novo. Acaba derretendo-se num abraço desses. E não pode!

Não. Derreter não. Se entregar jamais.

Confusa ela retorna ao centro da sala que está fria. Nos vidros das altas básculas horizontais se forma uma camada fina de gelo. Ela treme. O corpo todo cansado do esforço. A cabeça exausta por tentar manter o foco em não sucumbir.

Mas o frio e o desejo danificam o bom senso.

O frio vence e ela o abraça. Porque precisa e ainda mais relevante que isso. Porque deseja. Ela o abraça como se a sua vida dependesse daquele abraço. Como se longe do corpo dele pudesse realmente congelar.

Lúcia emite um longo e intenso suspiro. Uma inspiração de quem retoma o fôlego na volta de águas profundas. Ajusta seu foco visual e o mental ao local onde trabalha.

Do canto do seu salão o real Allende acena para ela sorrindo. Displicente, como quem não quer nada.

Ela acena de volta e pensa que bom seria se ele quisesse tudo. Seria bem bom.

Classroom

25 Mai

Ele é um professor. Meia idade. Careca, inteligente, com um charme peculiar.

O charme que ela vê nele não é o charme que ele realmente tem.

O charme que as mulheres, as mais velhas, vêem nele é o ar de intelectual e uma face madura de um homem bem sucedido na profissão.

O charme que ela vê é o que ele realmente é:

Um homem de meia idade. Inseguro, complicado, e nem tão bem sucedido assim.

Mas ela o ama. Ama quem ele realmente é.

O que as outras mulheres não sabem é como ele fode bem.

A forma como ele a agarra e arranha sua bunda quando estão fodendo.

Especificamente como ele chupa a boceta dela. E especificamente é a palavra empregada aqui porque é assim, com especificidade, minucioso, que ele a suga.

Como ele a segura pelo pescoço e mete o pau duro nela. Tão duro que trocam várias vezes de posição sem que ele descanse um segundo.

Ela entra na sala. Os homens ali presentes a observam. Não apenas por ela ser uma mulher linda.

Mas por liberar os feromônios perfeitos para atrair todas as atenções. Isso e a expressão de desejo que ela disfarça com um ar blasé.

O que os outros homens não sabem é que ela tem esses feromônios rescendendo por que se lembra da noite em que ela se ajoelhou diante dele no sofá da sala e o chupou. E que durante todo o tempo em que ela tinha na boca, no calor da língua, o pau duro dele, ela desejava que o momento nunca acabasse.

A aula transcorre. Os olhos dele passeiam por todas as pessoas na minúscula sala. Os olhos dela estão fixos nele. Os olhares se encontram algumas vezes no período de uma hora. Depois desse tempo esses encontros se intensificam.

Ele já com a atenção desviada de tudo olha as meias vermelhas dela no cruzar e descruzar de pernas proposital. O sorriso cínico que ela mantém no rosto por saber estar desconcentrando-o.

A aula acaba. Ela permanece sentada com as pernas cruzadas. Guarda na bolsa alguns papéis, caneta e idéias.

Boa parte da turma já deixou a sala. Apenas  um aluno esclarece com ele algumas dúvidas.

Ela se levanta. Ele a observa desde os sapatos vermelhos até os cabelos presos.

O que o aluno dizia naquele momento eram apenas ruídos e um balbuciar distante. Estava desconectado dali pela presença dela.

Ela se move devagar, como se quisesse que ele a alcançasse.

Ele se desvencilha da sua conversa com uma despedida desconexa. Apenas dispensa o aluno como quem dispensa um engraxate ou pedinte.

O rapaz passa por ela apressado e deixa a sala.

Ela alcança a porta e ele lhe alcança o braço.

A mulher retorna no susto. Susto este calculado por ela para parecer genuíno. Enquanto uma de duas mãos se apóia na maçaneta, a outra está estendida para trás no braço que ele agarra.

Com a outra mão dele a porta se fecha e estão os dois trancados na sala.

Ela joga o corpo de encontro à porta e permanece de costas pra ele.

Deixa os braços caírem como se fosse indefesa. Ele se aproxima e respira ofegante junto ao pescoço dela.

O rosto dela está contra a porta e imóvel.

A mão dele se enfia por baixo do vestido rasgando as meias vermelhas.

O corpo dela preso entre a porta e o corpo dele relaxa.

A mão dele encontra as mucosas úmidas entre as pernas da moça.

As mãos dela procuram por trás o pau duro dele. Ele não a deixa tocá-lo. Afasta as pernas dela com os pés e mete nela com força. Como se fosse a força. Mas ela gosta. Ela goza.

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